Frustrados com as respostas, ou até mais com a ausência delas às inúmeras cartas e ofícios enviados para as mais diversas entidades, começou-se a magicar na forma de tornar esta nossa luta, mais visível. Chegou-se a falar em cortes de estradas e outras soluções mais “à bruta”, que para além de não colherem o apoio dos quatro que faziam parte grupo de trabalho da AIA no Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (Paulo Dias, Pedro Santos, Jorge Marreiros e Hélder Martins), eram de difícil execução, e para além disso iriam provocar a antipatia pela nossa causa.Não era isso que pretendíamos. Na nossa “santa ingenuidade”, achávamos na altura que se conseguíssemos trazer o nosso caso à opinião pública, e se fosse discutido pelos órgãos responsáveis, conseguiríamos de alguma forma fazer com que a TAP assumisse a responsabilidade para com os trabalhadores de uma empresa sua afiliada.
O que é verdade, é que desesperados pelo fim da AIA e com o objectivo de mediatizar a nossa situação, surgiu um facto que com alguma sorte, poderia dar os seus frutos.
Havia uma lei dirigida aos trabalhadores abrangidos por processos de despedimento colectivo, como era o nosso caso, que lhes permitia em dois dias da semana, ir à procura de trabalho. Ou seja, o trabalhador podia, sem ser necessário avisar a empresa, dispôr de dois dias para tentar resolver a sua situação laboral.
O Futebol Clube do Porto encontrava-se em prova na Taça dos Campeões Europeus na época 1992/1993.
Em Abril de 1993, este clube fretou um avião à AIA para a equipa se deslocar a Milão para se defrontar com o AC Milan.
Misturando os dois dados, nada melhor em Portugal para chamar a atenção, do que bulir de alguma forma com o futebol... Assim, depois de nos aconselharmos com o Dr. Cadima Ribeiro – advogado à época do SNPVAC – acabámos por propôr que no dia do voo do FCP para Milão, os tripulantes de cabine fossem à procura de emprego, sem avisar a empresa!... Embora nem todos os intervenientes nos voos estivessem pelos ajustes para se colocarem a jeito para uma pega de caras, aconselhados pelo Dr. Cadima lá se chegou ao acordo de se levar isto por diante.
A logística foi pensada e depois de um dia a tratar dos preparativos alguém teria de ir à Póvoa de Varzim buscar os tripulantes que supostamente no dia seguinte fariam o voo para Milão. Ofereci-me eu para tratar deste pormenor e ao fim da tarde, lá fiz o percurso de Fiat Uno 55, até ao Hotel Vermar.
Chegado lá, uma contrariedade - embora o Hélder Fernando e o Gonçalo Paes estivessem prontos para ser trazidos para Lisboa, ninguém se lembrou ou sabia que a chefe de cabine Doroteia e a Lídia eram eventuais e não poderiam socorrer-se desta lei que apenas abrangia trabalhadores efectivos. Tanto a Doroteia como a Lígia estavam ao serviço da Air Atlantis desde a abertura da base do Funchal, mas estavam ainda a contrato!
Mesmo assim, trouxe o Hélder e o Gonçalo para Lisboa. O voo não se faria só com dois tripulantes de cabine.
Durante o dia, procurávamos ansiosamente o resultado desta aventura, até que uma notícia gelou as esperanças: o voo tinha saído com algum atraso. Como? A AIA (TAP) solucionou este imbróglio chamando duas tripulantes da TAP que estavam de estadia no Porto!
Conclusão: Mais do que nunca a ténue fronteira que separava a operação da AIA da operação da TAP esfumava-se.
Infelizmente nunca este facto foi devidamente aproveitado no decorrer do processo no Tribunal de Trabalho de Lisboa.
Quando em Janeiro de 1993, aquilo que foi um enorme pesadelo para a esmagadora maioria de nós, começou a tornar-se uma dura e confirmada realidade, sentiu o delegado sindical do pessoal de cabine da AIA na altura, o Paulo Dias, a urgência de organizar sessões de esclarecimento, patrocinadas pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC). Após uma ou duas reuniões, ficou desde logo esclarecido que não era intenção da TAP a integração de ninguém da AIA. Ficou também bem claro que não havia uma estratégia para encontrar uma solução que contrariasse esta intenção da TAP. A organização de um grupo de trabalho era necessária, e foi neste espírito que surgiram três voluntários que se dispuseram a trabalhar com o Paulo. Como já disse noutra ocasião, do pessoal navegante comercial (comissários e assistentes de bordo), voluntariámo-nos eu, o Pedro Santos e o Jorge Marreiros. Iríamos estar diariamente entre meados de Janeiro de 1993 e até ao final de Abril desse ano, numa sala disponibilizada pelo SNPVAC, a trabalhar, escrevendo cartas para as mais diversas individualidades e organismos, e a tentar ter ideias que de alguma forma pudessem reverter esta situação.
Foi como um arrancar de pele, a última vez que despi a farda da Air atlantis. Vestia como muitos, ou a maior parte de nós, não só a farda, mas também uma camisola invisível que se foi cravando fundo ao longo dos 6 anos que ali trabalhei.
Da nossa luta, e para quem não tem muito tempo ou paciência para ler a acção instaurada contra o Estado Português, ao abrigo do regime da responsabilidade civil extracontratual do Estado, recomendo pelo menos a leitura das páginas 15 a 17 e 185 a 186, do respectivo anexo enviado a todos no Email de 30.12.2009.
